O Brasil e a Covid-19: abrace a vacina!

O Brasil e a Covid-19: abrace a vacina!

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José Gomes Temporão*

O dia 17 de janeiro de 2021 ficará marcado na história da saúde pública brasileira. A agência reguladora brasileira - uma das mais importantes e qualificadas do mundo - autorizou a utilização no País das duas vacinas que serão produzidas pelo Instituto Butantan e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no combate à Covid-19. Além disso, a Anvisa reiterou que não existem medicamentos disponíveis que atuem diretamente sobre o vírus (o chamado “tratamento precoce”) e que, portanto, teremos que contar com a vacina para poder mudar radicalmente a atual situação sanitária do País. A ciência e a saúde pública brasileiras reafirmaram sua qualidade através de duas instituições centenárias que são motivo de orgulho para todos nós. Que isso sirva de lição para governantes e profissionais de saúde que durante esse período assumiram posturas negacionistas e irresponsáveis atacando as recomendações da ciência e fragilizando a capacidade nacional de enfrentar adequadamente esta grave situação. Depois da tragédia das mais de 215 mil mortes e ainda sob o impacto da catástrofe que se abateu sobre nossos concidadãos de Manaus, o País encontra uma oportunidade única de enfrentar a Covid-19 baseando sua estratégia na utilização das ferramentas que a ciência nos oferece: medidas de higiene pessoal, distanciamento social, uso universal de máscaras e, agora, as vacinas.
O Brasil dispõe de uma larga experiência em grandes campanhas de vacinação e tem um dos programas de imunização mais respeitados do mundo, o PNI. São cerca de 40 mil pontos de vacinação em todo o País, milhares de profissionais de saúde envolvidos e uma grande capacidade de mobilização da sociedade que sempre respondeu positivamente com uma expressiva adesão às campanhas, além da vacinação de rotina. Portanto, a partir deste momento, abre-se uma nova perspectiva para a sociedade brasileira. Temos que criar uma grande mobilização em defesa da vida e da vacinação para todos. Nossos
principais obstáculos no curto prazo serão superar a omissão e despreparo do Ministério da Saúde e do Governo Federal e criar uma grande mobilização na sociedade. Neste momento é importante confiar na segurança das vacinas.

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A principal garantia da segurança foi dada com a aprovação pela Anvisa, ou seja, as duas vacinas são totalmente seguras para uso na população e os eventuais efeitos colaterais são brandos e não colocam em risco a saúde de ninguém. Uma outra dúvida muito comum é se as pessoas que tiveram a doença devem se vacinar. A resposta é sim! Para que o vírus pare de circular teremos que atingir uma boa cobertura da população, para obter a chamada imunidade coletiva, por isso, todos dentro dos grupos prioritários definidos devem se vacinar. Mas não nos iludamos. Termos que aguardar um tempo até que as vacinas aplicadas cumpram seu objetivo de proteger. Até lá devemos continuar observando as recomendações da boa medicina e da saúde pública: manter as medidas de higiene pessoal, usar máscaras sempre, evitar aglomerações e manter o distanciamento, e não acreditar em falsas promessa de cura. Abrace a vacina!

*Artigo publicado no jornal O Povo, em 24/01/2021. José Gomes Temporão é ex-ministro da Saúde e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz.